Terça-feira, Dezembro 01, 2009

O dia da Restauração

- Mamã, telefonei para te desejar um bom feriado!
- Ah! Pois! A Restauração da Independência!

Não teria este diálogo nada de especial, se após ter explicado tudo o que me lembrava acerca do assunto e do que se fazia para assinalar a data quando eu era pequena, a minha filha me tivesse dito: "Muito bem, lembras-te de muita coisa da nossa História! Nunca me tinhas contado isso! E perdeu-se tudo?"

Estive a pensar que, de outras épocas da nossa história lembrar-me-ei de muito pouco, mas, a data 1 de Dezembro e o seu significado histórico, dia da Restauração da Independência, esses estão gravados bem fundo e acho que se deve ao facto de, aqui na Madeira, na noite de 30 de Novembro para 1 de Dezembro, algumas pessoas, pela calada da noite, escreverem a giz, nas portas das casas, a data "1640". Lembro-me de acordar pela madrugada, e com excitação, eu e as minhas irmãs, descermos a escadaria, pé-ante-pé, para verificarmos que a tradição se cumpria - lá estava a data rabiscada: 1640! Ficávamos felizes!

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Género e sexo

De vez em quando lembro-me de episódios passados com os meus netos que me fazem pensar. O meu neto tem actualmente 7 anos mas na altura em que este diálogo entre mim e ele aconteceu tinha apenas 3 anos.

-Avó, o avô tem um pénis, não tem?
- Tem sim.
- E o meu pai também tem um pénis!
- Pois o teu pai também.
- Eu também tenho um pénis avó!
- Sim, tu és um menino tens um pénis.
- Mas a avó tem uma vulva.
- É verdade.
- E a minha mãe tem uma vulva.
- Sim, querido.

- E a tia L (senhora com 80 anos) tem um pé…, avó, o que é que a tia L tem?

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

O enigma do som do telemóvel

Para mim o som do telemóvel é um enigma. Cada vez mais sinto a necessidade de localizá-lo ligando de outro telefone, pois não me lembro onde o deixei. E acontece que ele toca, toca, e eu ando feita doida à sua procura, sem conseguir perceber de que lado vem o som.


É exactamente para issso, para descobrir de onde vêm os sons que temos dois ouvidos. O cérebro humano localiza os sons comparando os momentos da sua chegada (fases) e as intensidades das ondas acústicas que partem de uma mesma fonte e que chegam aos dois ouvidos. Estas diferenças de fases e de intensidades resultam da diferente distância entre os dois ouvidos e a fonte sonora.

Quando a fonte sonora está localizada à nossa frente os sons atingem os dois ouvidos ao mesmo tempo e exercem forças iguais nas superfícies receptoras do ouvido que transmitem a informação ao cérebro. Pelo contrário quando a fonte sonora está mais deslocada para a direita, por exemplo, as ondas sonoras atingem o ouvido esquerdo ligeiramente mais tarde que o ouvido direito; são também menos intensas à esquerda do que à direita porque estão um pouco mais dispersas e também porque uma parte foi absorvida ou reflectida pela cabeça.



Para mim é um enigma pois eu tenho duas orelhas e dois ouvidos exactamente porque a evolução favoreceu esta anatomia para podermos perceber onde se encontram as fontes sonoras. Se tivéssemos apenas um ouvido poderíamos reconhecer os sons mas seríamos incapazes de localizar com precisão a sua origem, encontar o bebé que chora ou fugir de um rugido de leão.

Mas há sons que nos confundem, como o som estereofónico, em que os sons têm a mesma intensidade e são emitidos simultaneamente pelos dois auscultadores o que resulta num som fantasma que parece ter origem no interior da nossa cabeça. Quando o volume do som é diminuido de um dos lados e a sua emissão retardada o som conjunto vai deslocar-se para o ouvido oposto.

O cérebro detecta as diferentes fases e intensidades acústicas, combinando a informação resultante para localizar o som, através de um grande número de etapas sucessivas em que as informações de fase e de intensidades são tratadas separadamente por circuitos paralelos que não convergem senão mais tarde, num mecanismo chamado de fusão binaural. Aí, entendemos de onde vem o som.

Então por que tenho dificuldade em localizar o telemóvel que toca? Poderia pensar que seria apenas eu a ter essa dificuldade, mas constato que pessoas minhas conhecidas também a têm.

Continuo confusa!

Imagens:1, 2, 3

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Heranças

Uma conversa que publiquei no blog dá que pensar, levou-me a escrever este post. Em linguagem acessível, vou tentar explicar como herdamos o tipo de sangue.

Toda a gente possui o seu tipo de sangue. A classsificação mais comum, dos diferentes tipos sanguíneos, baseia-se em duas descobertas de Karl Landsteiner, uma em 1900, (sistema ABO) e outra em 1940 (Factor Rh).

O tipo de sangue é estabelecido antes do nascimento, por genes específicos herdados do pai e da mãe. Em relação ao sistema ABO, os dois genes herdados determinam o tipo de sangue através da produção ou não, de duas proteínas chamadas aglutinogénios A e B, na superfície de cada um dos glóbulos vermelhos.

Existem 3 formas (alelos) do gene que controla o tipo sanguíneo e que, para simplificar, se podem designar por A, B e O. Como nós temos 2 cópias deste gene (uma recebida da mãe e outra do pai), existem 6 possíveis combinações ou genótipos:

AA, AO, BB, BO, AB e OO.

A herança dos alelos é co-dominante, o que significa que, se o alelo está presente, há produção da proteína correspondente. Assim, os genótipos:
  • AA e AO - produzem a proteína A e o sangue é tipo A;
  • BB e BO - produzem a proteína B e o sangue é tipo B;
  • AB - produz as proteínas A e B e o sangue é tipo AB;
  • OO – não produz nenhuma das proteínas e o sangue é tipo O
Além dos aglutinogénios, existem outras proteínas produzidas também a partir da informação dos nossos genes, chamadas aglutininas e que circulam no plasma sanguíneo. Estas aglutininas são proteínas protectoras e são responsáveis por assegurar que apenas existam células sanguíneas do nosso tipo particular de sangue.

Conjugando as duas coisas temos, então, 4 tipos de sangue:

  • tipo A - apenas a proteína A está presente; possui aglutininas anti-B
  • tipo B - apenas a proteína B está presente; possui aglutininas anti-A
  • tipo AB - ambas as proteínas A e B estão presentes; não possui aglutininas
  • tipo O - nenhuma das proteínas está presente; possui aglutininas anti-A e anti-B

A outra classificação mais usada, baseia-se na presença ou não de uma outra proteína chamada de factor Rh (Rh porque foi primeiramente identificada no sangue de macaco Rhesus). Se o factor Rh está presente o sangue é Rh+; se está ausente o sangue é Rh-. A produção ou não deste factor Rh é controlada da mesma forma, pelos alelos que recebemos, um do pai e outro da mãe, de modo que as pessoas com genótipos Rh+Rh+ e Rh+Rh- têm sangue tipo Rh+ e as pessoas com sangue tipo Rh- apenas podem ter o genótipo Rh-Rh-.

Temos então vários tipos de sangue conjugando o sistema ABO e o Factor Rh:

A Rh+, B Rh+, AB Rh+, O Rh+, A Rh-, B Rh-; AB Rh- e O Rh-.

A falta de esclarecimento daquele pai (ver post) levou-o a suspeitar que a filha não era dele.

Já agora, um exercício, partindo do princípio que a filha é mesmo dele (só as análises de DNA podem dar 99,9% de certezas) que genótipos (em relação ao factor Rh) podem ter, ele e a mulher?


Karl Landsteiner naceu em Junho de 1868 em Viena e morreu em Nova York a 26 de Junho de 1943. Foi prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1930.

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Aëdes aegypti geneticamente modificados



Tenho andado calada em relação aos mosquitos. Apesar de todos os cuidados que tenho que incluem, usar calças compridas, sapatos fechados, repelente, nas alturas do dia em que os mosquitos picam, ou seja, pela manhãzinha e pela tardinha, lá vem o dia em que se entra num local infestado, mesmo nas horas do meio do dia, e pronto, é-se picado. Aconteceu comigo em Agosto. No mesmo dia fui picada várias vezes. E claro está só dei conta depois.

Andei calada a ver que, como previa, a mosquitada proliferou, e bem. Até que ouvi esta pérola de que não se abriu concurso para controlar a população de mosqitos por causa do tribunal de contas!

Depois vieram as acusações contra todos, autoridades sanitárias, ambiente, câmaras e cidadãos em geral.

E agora, vejo escrita uma página inteira com uma entrevista a um cidadão brasileiro que opina sobre o uso do insecto esterilizado para diminuir a população de Aëdes aegypti aqui na Madeira.

ovos









larva

pupa


É verdade que se usou e se está a usar a Técnica do Insecto Esterilizado (sigla em inglês SIT) aqui na Madeira para controlar a mosquinha da fruta, mas a diferença é que esta técnica resulta na dita mosquinha mas existem sérias reservas quanto à sua eficácia no caso do mosquito Aëdes aegypti.

A base da SIT é criar em laboratório machos esterilizados através de irradiação e lançá-los posteriormente no ambiente para que acasalem com fêmeas silvestres não resultando daí descendência. Se o número de insectos libertado for suficientemente grande (milhões), então a probabilidade das fêmeas encontrarem e acasalarem com um macho estéril é maior que a probabilidade de encontrarem e acassalarem com um macho silvestre que é fértil.

Como disse acima, no caso da mosquinha da fruta esta técnica é eficaz mas no caso do Aëdes aegypti não parece ser porque os mosquitos estéreis não conseguem competir com os machos silvestres no acesso à cópula com as fêmeas – elas conseguem perceber a diferença e não acasalam com os machos estéreis! E além disso o processo de irradiação tem efeitos nocivos nos machos diminuindo o seu vigor.

Existe ainda mais um contra, esta técnica (SIT) não é adequada para populações dependentes da densidade de indivíduos, como é o caso do Aëdes aegypti, porque leva a um aumento da sobrevivência dos estadios juvenis silvestres como resultado de uma redução da densidade da população de larvas. Explico: se houver um menor número de ovos presentes num determinado criadouro, as larvas daí resultantes não precisam de competir tanto umas com as outras pela obtenção do alimento, aumentando a sua sobrevivência e também o número de ovos que podem produzir quando insectos adultos.

É por esta razão que se está agora a estudar a uma “SIT modificada” e que consiste em criar mosquitos machos portadores de um gene que fará com que os seus descendentes morram ao atingirem a fase de pupa. Estes mosquitos machos, transportando este gene letal, são libertados no ambiente. As fêmeas silvestres que acasalarem com estes machos porão ovos como usualmente, as larvas resultantes desenvolver-se-ão também como normalmente, mas quando passarem à fase de pupa, morrerão.

Parece um contra-senso fazer nascer a larva, mas do ponto de vista do controlo do Aëdes aegypti, a morte num estádio mais avançado constitui uma vantagem porque estes animais ocupam os reservatórios de criação como larvas. E isto é importante porque as larvas competem umas com as outras pelo alimento. E sendo assim, a sua presença no criadouro ajuda a manter a população baixa.

Mas se estes mosquitos carregam consigo um gene que os faz morrer no estádio de pupa, como se pode fazer para reproduzi-los em laboratório?

E esta é a parte mais interessante: é que o gene introduzido nestes mosquitos criados por engenharia genética depende daquilo que a larva come. E para a larva não morrer tem de se alimentar com tetraciclina que é um antibiótico: no laboratório, as larvas são alimentadas com tetraciclina e não morrem chegando pois a insectos adultos; no meio ambiente, como não existe o antibiótico morrem no estado de pupa.

A verdade é que, por vezes, se pode encontrar este antibiótico na natureza em pequenas quantidades pois é fabricado por algumas bactérias e também é usado na agricultura de modo que as águas perto das quintas agrícolas por vezes contêm vestígios; mas as fêmeas do Aëdes aegypti não gostam destas águas poluídas para colocarem os ovos e preferem águas limpas.

Existem ainda outros processos de controlo baseados na engenharia genética, muito interessantes, mas que são demasiado técnicos para caberem aqui, nestas simples descrições.

Tenho muita fé nestes processos, mas, enquanto estas técnicas não estão disponíveis, o que fazer? Ver aqui e aqui

Referência:
(Phuc, H. K. et al 2007. “Late-acting dominant lethal genetic systems and mosquito control.” BMC Biology 5: 11.)
Fotografias:1, 2, 3 e 4

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

A beleza das simetrias

Quando andava a estudar o comportamento dos pavões, durante o meu mestrado em Etologia, verifiquei que aos pavões que eu e os meus colegas de investigação achávamos mais bonitos (mais belos) eram também os mais procurados pelas fêmeas e que, como consequência, acasalavam mais vezes.

Eu e as pavoas valorizávamos, por certo, alguma coisa em comum. Elas pretendiam acasalar com um macho de qualidade; eu pretendia descobrir a razão das suas preferências (
que, por acaso (???) coincidiam com as minhas preferências de beleza animal). Para não haver um enviesamento dos resultados, medimos dados muito objectivos. No final da investigação, além de outras coisas, verificámos que os pavões mais escolhidos pelas fêmeas eram os mais simétricos!

Na altura comecei a pensar se existiria também, na nossa espécie, alguma relação entre a simetria do nosso corpo e a atracção sexual. Procurei e encontrei investigação nesta área que mostra que assim é.

Simetria e beleza! Haverá alguma ligação?

Existem muitos exemplos no reino animal de preferência na escolha de um parceiro sexual baseado na sua simetria - para dar apenas dois exemplos, temos insectos, como por exemplo as moscas escorpião (
Mecoptera) e aves, como por exemplo a andorinha (Passeriformes, Hirundinidae) cujos machos preferem acasalar com fêmeas com asas de igual tamanho, evitando as fêmeas com asas desiguais.

É um assunto interessante e talvez não seja por acaso que a natureza, criou formas vivas e não vivas, baseadas num plano de simetria. Vejamos alguns exemplos: cristais, virus, bactérias, ouriços-do-mar, borboletas, moscas, aranhas, passarinhos, homens, …, uns com simetria bilateral, outros com simetria radial.

Existem estudos muito interessantes sobre este assunto. Um, por exemplo, relaciona a simetria humana facial e corporal com os julgamentos da sua atractividade (faces e corpos simétricos são considerados mais atractivos) e mostra que as agressões ambientais produzem assimetrias durante o desenvolvimento, agressões essas que incluem, nomeadamente, prevalência de parasitas que habitam o corpo humano, mutações e toxinas.

Uma vez que as assimetrias físicas, ou seja, desvios da simetria bilateral, revelam uma incapacidade em resistir aos efeitos nocivos de perturbações durante o desenvolvimento, o grau de assimetria pode ser usado como pista para determinar o estado de saúde do indivíduo e também como um índice do grau segundo o qual o desenvolvimento desse indivíduo foi afectado por agentes causadores de stress.

Um outro estudo interessante, usou o computador para criar várias faces a partir da sobreposição de 4, 8, 16 e 32 faces verdadeiras, originando assim “faces compostas”. Estas faces foram apresentadas a pessoas, juntamente com faces não modificadas e foi-lhes pedido para as ordenarem da mais atractiva para a menos atractiva. E o resultado foi o seguinte: as faces compostas foram uniformemente julgadas fisicamente mais atractivas do que qualquer face individual. A face formada pela sobreposição de 16 faces foi considerada mais atractiva que as formadas por 4 e 8 faces, sendo a face formada pela sobreposição de 32 faces aquela que foi considerada a mais atractiva de todas. Uma vez que a sobreposição das faces tende a eliminar as irregularidades e a torná-la mais simétrica, então, a razão da escolha pode ser as faces simétricas serem mais atractivas.

Os psicólogos evolucionistas sugerem que as nossas preferências pela simetria podem ser explicadas no contexto da escolha de um parceiro sexual porque a simetria representa um indicador honesto da qualidade genética de um potencial parceiro sexual. Segundo a teoria dos "bons genes" da selecção sexual, os indivíduos evoluíram as suas preferências sexuais por parceiros que possuem características físicas que dão indicações relativas aos genes que aumentam o vigor e a viabilidade dos filhos.

Será que tudo tem a ver com sexo? Até a noção de belo? É uma ideia recorrente que me acompanha há já algum tempo.

E sexo e poder? Não há dúvida.

As nossas escolhas nos políticos em quem votamos obedecem também ( de certo modo e inconscientemente) a este julgamento da simetria facial?


Pergunta tola: Quem ganhará as eleições americanas?


Consultas:
Gangestad, S. W., Thornhill, R., & Yeo, R. A. (1994). Facial atractiveness, developmental stability, and fluctuating asymetry.
Ethology and Sociobiology, 15, 73-85.
Langlois, J. H., & Roggman, L. A. (1990). Attractive faces are only average. Psychological Science, 1, 115-121.
Schackelford, T. K., & Larsen, R. J. (1997). Facial assymmetry as indicator of psychological, emotional, and physiological distress. Journal of Personality and Social Psychology, 72, 456-466.
Fotografias retiradas daqui, daqui e daqui

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

Mulheres atraentes


Estou constantemente a ver na televisão e nos media, em geral, mensagens explícitas e implícitas acerca do corpo perfeito, atraente e saudável. Para vender um carro, um seguro ou qualquer outra coisa, associa-se a imagem de uma mulher, atraente, jovem, em posições corporais de índole sexual. Para vender uma revista de electrónica, enfia-se na capa uma mulher semi-nua, provocante. Assim, vende-se.

O que é para os homens ser uma mulher atraente? Ter uma cara bonita? Ter um corpo bonito, perfeito, com “curvas”?
Será que todas as culturas valorizam as mesmas características no corpo de uma mulher?
O corpo das modelos corresponde ao corpo perfeito?
Existe alguma coisa no nosso passado evolutivo que nos leva a valorizar o corpo das mulheres?

São muitas perguntas que estão, do meu ponto de vista, todas relacionadas.


Os standards de atractatibilidade corporal de uma mulher variam de cultura para cultura. Por exemplo, nas culturas em que o alimento é escasso um corpo mais gordinho mostra sinais de saúde e de nutrição, enquanto que nas sociedades em que o alimento é relativamente abundante a relação entre a gordura e o estatuto está invertida, sendo um corpo magro sinal de saúde.

A preferência em relação ao tamanho do corpo varia de cultura para cultura, mas existe uma preferência pela forma do corpo, que é única e universal e que tem a ver com a relação entre a medida da cintura e a medida das ancas.

Sabemos que antes da puberdade, rapazes e raparigas apresentam, uma distribuição semelhante da gordura corporal, mas na altura da puberdade acontecem mudanças drásticas nesta distribuição: os rapazes perdem a gordura das nádegas e das coxas enquanto que as raparigas ganham depósitos de gordura exactamente nas coxas e nas ancas, atingindo nessas zonas um volume 40% maior do que nos homens.


A razão entre a medida da cintura e a medida das ancas (vou abreviar para RCA) é semelhante em ambos os géneros, antes da puberdade, variando entre 0,85 e 0,95. Contudo, depois da puberdade o depósito da gordura nas coxas e nas ancas das raparigas faz com que a sua RCA se torne significativamente mais pequena em comparação com os homens. Assim, as mulheres com capacidade reprodutora apresentam uma RCA entre 0,67 e 0,80 enquanto que os homens mantêm uma RCA entre 0,85 e 0,95.


O que tem isto a ver com atracção?


Algumas experiências actuais mostram que os homens preferem as figuras femininas médias (nem gordas nem magras) mas, uma coisa é certa, independentemente de serem mais magras ou mais gordas, os homens acham as mulheres com baixa RCA, mais atraentes. As mulheres com uma RCA de 0,70 são consideradas mais atraentes que as que possuem uma RCA de 0,80, e estas, por sua vez, mais atraentes que as mulheres com uma RCA de 0,90.


Existe um estudo interessante que se debruçou na análise das mulheres fotografadas nas páginas centrais da revista Playboy e das vencedoras dos concursos de beleza nos E.U. a partir da década de 70 que confirma a regra da preferência dos homens por mulheres com uma RCA baixa. Apesar das mulheres terem vindo a se tornar mais magras, as suas RCAs mantêm-se exactamente as mesmas: 0,70. É a célebre “forma de violino”.


A investigação científica apresenta evidências abundantes que indicam constituir a RCA um indicador fiável do estatuto reprodutor de uma mulher. Por exemplo, as mulheres com uma RCA mais baixa apresentam uma actividade endócrina pubertária mais precoce e engravidam mais facilmente e as mulheres com uma RCA mais alta mostram uma maior dificuldade em engravidar e quando engravidam fazem-no com uma idade mais avançada em relação às mulheres com RCAs mais baixas. Além dissso a RCA constitui também um bom indicador da previsão a longo prazo da condição de saúde de uma mulher. Doenças como a diabetes, hipertensão, ataque cardíaco, trombose, doenças da bexiga, têm sido ligadas à distribuição da gordura corporal e não propriamente à sua quantidade total.


Sendo assim, a ligação entre a RCA e saúde e estatuto reprodutor, deve ter constituído uma pista forte e fiável para os homens ancestrais na “escolha” de uma parceira sexual, desenvolvendo-se, ao longo das gerações a preferência pelas mulheres que exibiam baixas RCAs. Os homens que falhassem esta avaliação, teriam menos filhos e, eventualmente, a sua linha genética, desapareceria.


Provavelmente esta foi uma das formas que a natureza achou para perpetuar a espécie: “inventar” a atracção sexual como forma anticipada de prazer sexual.


A propósito: a minha RCA é 0,76. Para 58 anos anos não está mal!


Consultas:
Singh, D. (1993). Adaptative significance of waist-to-hip ratio on judgments of women's
attractiveness. Journal of Personality and Social Psychology, 65, 293-307.
Singh, D., & Young, R. K. (1995). Body weight, waist-to-hip ratios, breasts and hips: Role in judgments of female attractiveness and desirability for relationships. Ethology and Sociobiology, 16, 483-507.
Fotografia retirada daqui

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Avós, netos e ... genes!



Tenho observado, nas pessoas minhas conhecidas que como eu já são avós, que existe uma grande diferença no envolvimento com os seus netos, quer a nível comportamental quer a nível emocional.

Haverá alguma explicação para isto? Haverá alguma explicação evolutiva para o facto de alguns avós estarem emocionalmente muito ligados aos seus netos, terem um contacto frequente e investirem muito neles em recursos e outros apresentarem um envolvimento emocional distante, um contacto pouco frequente e um pequeno investimento em recursos?

Vasculhei a minha memória e lembrei-me de já ter estudado o assunto. Está claro que o que vou dizer não explica tudo, mas pode dar alguma pista.

Sabemos que os animais tendem a exibir estratégias comportamentais que favorecem o sucesso reprodutor dos seus parentes, mesmo com custos para a sua própria sobrevivência e/ou reprodução. Equivale a dizer que nós evoluímos de forma a favorecermos as pessoas que nos são geneticamente mais próximas de modo a perpetuarmos os nossos genes, através deles.

Mas, como se propaga um gene? - De duas formas: aumentando a probabilidade do indivíduo que o possui chegar à idade adulta e reproduzir-se; aumentando a capacidade reprodutiva dos familiares mais próximos que também possuem cópias do mesmo gene.

Também se sabe que cada pessoa recebe metade dos seus genes da sua mãe e a outra metade do seu pai. Sendo assim, teoricamente, pais e filhos e irmãos entre si partilham 50% dos genes, avós e netos, tios e sobrinhos partilham 25% e os primos, partilham entre si, 12,5% dos genes.

Se pensarmos no problema adaptativo, enfrentado pelos homens, da incerteza da paternidade, versus 100% de certeza das mulheres acerca da sua maternidade (ver meu post) podemos também estender este raciocínio aos avós, com a agravante de agora termos duas gerações de descendentes. Isto quer dizer que, para os avôs, a incerteza pode duplicar: podem não ser os pais biológicos do seu filho e além disso o seu filho pode não ser o pai biológico do seu neto! No outro extremo temos as avós com 100% de certeza: o neto é filho da sua filha.

Se pensarmos que o envolvimento depende, em certa medida, disto, então podemos considerar uma “escala de envolvimento com os netos”, que apresenta a avó materna num extremo e no outro extremo o avô paterno; a avó paterna e o avô materno preenchem o meio da escala, pois a avó paterna “não tem a certeza” se o seu filho é o pai biológico do seu neto e o avô materno “não tem a certeza” se é o pai da mãe do seu neto!

Complicado?

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Lógico?

Depois de umas férias retemperadoras tive de atravessar um mar tão tumultuoso que já estou a precisar de férias outra vez! Mas já consigo uma folga, para estar neste cantinho que me acalma e sentir a amizade dos que continuaram a me visitar, mesmo numa ausência tão prolongada. E o melhor para me livrar do stress do dia de trabalho é lembrar episódios relacionados com os meus netos.

Por vezes vou buscar o meu neto à escola e no trajecto até casa, gosto de conversar com ele sobre variadíssinos assuntos. Um dia, no meio da conversa, disse-me que gostaria de ter um determinado brinquedo mas que ia pedir ao avô que o comprasse. Perguntei se poderia ser eu a comprá-lo, ao que me respondeu que não porque o avô ganhava mais dinheiro do que eu.
-Por que dizes isso? - perguntei eu
-Porque ele compra-me mais coisas do que tu - respondeu, apelando à sua lógica de 6 anos
Daí a pouco, lançou esta incompreensão: - Avó, eu não percebo, se tu chegas a casa depois do avô, como é que ganhas menos?
Lógica?

Sexta-feira, Julho 25, 2008

Women's mate preferences

Recebo na minha caixa de correio muitas piadas que classificam as mulheres como grandes interesseiras. Confesso que não gosto e acho que, de um modo geral, as outras mulheres também não gostam. Ser interesseiro é uma coisa, valorizar recursos é outra.

As piadas aparecem a partir da deturpação dos comportamentos e de uma forma enviesada expõem uma evidência comprovada por numerosos estudos que mostram que, de um modo geral, as mulheres valorizam mais que os homens os recursos económicos de um potencial parceiro sexual, qualquer que seja o continente,
o sistema político, o grupo etnico, a religião ou o sistema de casamento (monogâmico (!?) ou poligínico). No entanto, as mulheres não vêm uma boa situação financeira como absolutamente indispensável numa relação mas classificam-na como importante enquanto que os homens a classificam como desejável mas não muito importante.

Que explicação se pode encontrar?


Vamos pensar nas mulheres ancestrais que enfrentavam enormes sobrecargas com a fertilização interna, com nove meses de gestação, com a lactação e com a criação dos filhos. Estas mulheres beneficiariam tremendamente se escolhessem para companheiro um homem que lhes proporcionasse vários recursos e se quizesse envolver num relacionamento de longa duração. Existem estudos transculturais que suportam a hipótese de que as mulheres actuais são descendentes de uma longa linha de mulheres que tiveram estas preferências na escolha de um companheiro – foram estas preferências que ajudaram as suas ancestrais a resolver problemas adaptativos de sobrevivência e de reprodução. Assim, ao longo de milhares de gerações estes comportamentos ficaram gravados na herança genética de homens e mulheres.

É preciso notar que a evolução destas preferências femininas por homens que oferecem recursos só foi possível acontecer a partir do momento da nossa história evolutiva em que os homens acumulam, defendem e controlam os recursos, diferem uns dos outros no suporte fornecido e em que as vantagens de ficar apenas com um homem ultrapassam as vantagens de ficar com vários.


Talvez seja por isto que as mulheres preferem homens mais velhos, porque a idade do homem fornece uma importante pista em relação à posse de recursos económicos. Para compreeender as razões por que as mulheres preferem homens mais velhos, temos de considerar o que muda com o aumento de idade. Uma das mais consistentes mudanças tem a ver com o acesso aos recursos económicos. Respeito, estatuto, posição e aumento dos rendimentos normalmente adquirem-se com a idade, atingindo o seu pico por volta dos 40 ou mesmo 50 anos; raramente estas características são controladas pelos adolescentes e homens jovens.

O que é interessante é que as mulheres de 20 anos tipicamente preferem casar com homens apenas alguns anos mais velhos do que ela
s. Uma das razões desta escolha não recair em homens substancialmente mais velhos pode prender-se com o facto destes homens correrem um maior risco de morrer e portanto terem menor probabilidade de contribuir para o provisionamento e protecção dos filhos.

Mas a posse de recursos, contudo, não é suficiente. As mulheres também precisam de homens que possuam traços, como a ambição, que mostrem que serão capazes de manter esses recursos ao longo da vida. Este assunto nã
o se esgota por aqui. Tudo isto é muito mais complexo!

Foto retirada daqui.

Dance flies mating. The female is consuming a nuptial gift


Neste momento estou de partida, para umas merecidas férias. Calmas. Relaxadas. Sinto-as como momentos de gratidão física e emocional. Vou também fazer uma interrupção na publicação de “posts” mas não dos comentários que são sempre bem-vindos. Um abraço.

Sábado, Julho 12, 2008

Por que preferem os homens mulheres mais jovens?


Todos conhecemos, pelo menos um caso, de homens que “trocaram” a sua mulher por uma “garota” de vinte anos. É comum ouvir-se dizer que provavelmente é a andropausa e então procuram novos estímulos. Será?

Apesar desta preferência ser universal, existem algumas ligeiras diferenças entre diferentes culturas. Assim, por exemplo, nos países nórdicos os homens escolhem noivas um a dois anos mais novas, mas na Nigéria e na Zambia preferem mulheres com menos 6-7 anos. Isto tem a ver com o facto de na Nigéria e na Zambia os homens poderem ter várias esposas e de serem mais velhos quando conseguem o estatuto e os recursos para atrair várias esposas; nas sociedades monogâmicas os homens casam mais cedo.

É interessante verificar que à medida que os homens envelhecem preferem mulheres com uma diferença de idade maior em relação à sua: na casa dos trinta, preferem mulheres apenas cinco anos mais novas; os cinquentões preferem as de vinte. Ora, isso não é novidade nenhuma!

O que é interessante é que os homens não preferem as mulheres novas de per se mas o que eles procuram está associado com o seu valor reprodutivo. O valor reprodutivo das mulheres declina rapidamente a partir dos 20 anos; aos quarenta é pequena e aos cinquenta …hã? Quer isto dizer que a oportunidade de reprodução das mulheres fica restrita a uma fracção da sua vida. E é precisamente por isso que eles preferem as mais novinhas.

Parece que, afinal, os homens não fazem por mal! É que existe uma explicação evolutiva: durante o nosso passado evolutivo a juventude feminina esteve sempre consistentemente ligada à fertilidade!

Pois!

Domingo, Junho 29, 2008

Can you count with me?

Tenho por hábito escrever as coisas engraçadas que acontecem com a minha família. Aponto no papel que tenho à mão para não me esquecer mas depois facilmente me esqueço do lugar onde o "guardei".

Nestes últimos dias tenho andado a fazer arrumações e encontrei um desses papéis referente ao meu neto quando tinha três anos. Nessa altura ele “sabia” contar até dez em inglês, identificava as côres também em inglês e reproduzia o que ouvia nos desenhos animados. Uma tarde, durante as suas brincadeiras, disse:
-I need an airplane.
-What for? – perguntei eu.
-Five – respodeu ele.

Quarta-feira, Junho 18, 2008

Um milhão de anos?

A minha neta tem 4 anos e gosta muito de collants coloridos. Ao reparar no seu jeito para as vestir (muitas mulheres desejariam fazê-lo como ela, tenho a certeza!) perguntei-lhe como era capaz de o fazer tão bem, ao que me respondeu:
- Avó, eu já faço isto há milhões de anos!

De imediato comecei a pensar que, como ela, nós também não sabemos verdadeiramente o que é um milhão de anos! Lembrei-me de quando andava na Universidade a estudar as cadeiras de Geologia ter tido a mesma sensação de desconforto em relação a isso a que chamamos tempo. Percebemos o tempo sempre em referência a alguma coisa, nem que seja quando ele nos falta … para fazermos alguma coisa. É por isso que o nosso tempo se mede em anos e o tempo da terra se mede com outra unidade de referência – um milhão de anos.

Se pensarmos, por exemplo, no tempo que foi necessário para que um rio escavasse o seu leito, cortando as rochas que agora o flanqueiam, e, anteriormente, para que estas mesmas rochas estratificadas se depositassem no fundo do mar e para que depois se pregueassem e se elevassem até à altura a que as encontramos hoje em dia, perceberemos que, tudo se desenrolou a um ritmo, para nós quase imperceptível que e é exactamente o que nos dá a sensação da imutabilidade de uma paisagem. Porque o nosso tempo é curto (diria zero) comparado com o da Terra.

Para nós humanos, é muito difícil compreeender o que representa um milhão de anos porque é algo que sai da nossa própria experiência. Enquanto que para um homem um século representa toda a sua vida (ainda sobram uns anitos!), geologicamente não significa nada - as montanhas, os vales, a costa marítima, de há cem anos atrás eram mais ou menos como agora, com algumas diferenças insignificantes. Estamos no século XXI e podemos pensar que desde o nascimento de Cristo, um rio pode ter desviado o seu curso alguns metros ou uma costa marítima ter retrocedido ou avançado também alguns metros, mas isso não mostra uma mudança fundamental. Agora um milhão de anos, já pode mudar realmente a face da terra. Percebemos isso?

Um outro aspecto interessante é o efeito de “perspectiva” temporal, que nos faz ver como muito próximos entre si, fenómenos geológicos que realmente ocorrem a distâncias de vários milhões de anos uns dos outros. Este efeito de “perspectiva” é tanto mais evidente quanto mais antigos são os acontecimentos. Por exemplo, os dinossaurios apareceram na Terra há 231 milhões de anos e extinguiram-se há 65 milhões de anos; o aparecimento do homem primitivo aconteceu há um milhão de anos. Se fizermos as contas verificamos que entre os dois primeiros acontecimentos se passaram 176 milhões de anos e entre o segundo e o terceiro se passaram 64 milhões de anos. Essa diferença é significativa para nós? Percebemos realmente essa diferença? Será que isso é importante?

Tenho a impressão que a minha neta tem mais a certeza do que é um milhão de anos do que eu!

Sábado, Junho 07, 2008

Emoções, informação e computadores

A noite passada dormi mal e, como não consegui estar mais tempo na cama, levantei-me…

Vim para uma sala cheia de computadores, DVDs, CDs, videocassetes, leitores e gravadores, colunas de som … e, ao olhar para tudo aquilo, veio-me a certeza de que a única informação que perdura no tempo é aquela que apenas depende do cérebro humano para ser descodificada.

Senão vejamos: para que servem todas estas videocassetes de bonecos animados que paciente e activamente fomos comprando para as nossas filhas quando eram pequeninas? E ainda por cima Betamax! E o vídeo para as ler? Estragado. Ultrapassado. Sem peças para substituir.

E as videocassetes dos acontecimentos importantes das nossas vidas que foram cuidadosamente filmados com muito amor e dedicação?

E os CDs. Montes deles. Para serem passados para MP3.

E os DVDs. Para serem gravados no disco rígido.

Toda esta informação e todas estas emoções gravadas não estão acessíveis. Então para que servem?

Lembro-me perfeitamente quando comprámos o nosso primeiro computador (em 1988) de pensar que agora ia ficar livre de toda a papelada com que um professor sempre anda embrulhado e passar a ter tudo o que precisava a um simples movimento do rato. Realmente livrei-me do papel. Bastava carregar uma disquete. Por segurança, fiz back-ups de tudo, mas o que não previ na altura (e acho que a quase totalidade das pessoas utilizadoras de computadores, também não) é que teria de actualizar constantemente essas cópias de segurança sempre que a evolução nesta área acontecesse. Hoje, com os sistemas avançados que existem, não consigo ler os ficheiros mais antigos. Porque há programas que simplesmente desapareceram. Só se houver uma máquina antiga, algures nesse mundo, ainda a funcionar bem e com os programas que criaram os meus ficheiros é que consigo recuperá-los em boas condições.

O mesmo acontece em relação aos filmes que guardam o crescimento das minhas filhas. Estou a tentar passá-los para DVD. Mas o problema vai transferir-se para mais tarde.

Passa-se o mesmo com as fotografias. Agora guardam-se no computador. E é preciso estar atento com a sua evolução. Agora aprendi. Mas se faltar a energia, se o computador se avariar ou se as apagar acidentalmente, já não as posso ver.

Também andei a pensar que há coisas que os meus netos nunca poderão conhecer. São coisas “pequenas” mas que podem ter um grande significado. Tenho,por exemplo, uma caixinha onde guardo alguns documentos importantes da nossa família e outros menos importantes mas de grande significado. O primeiro recibo da renda do escritório do meu pai. O recibo da renovação da mobília da sala quando fiz 16 anos. Uns versos de amor feitos pelo meu pai e dedicados à minha mãe. Uma mensagem de amor no verso de uma fotografia minha dedicada ao meu namorado…

Hoje pagamos tudo on-line. As mensagens são electrónicas. Agora nada disto é emoção. Agora não é nada.

Já não se escrevem cartas de amor...

Outros tempos.

Com os livros, só dependo do meu cérebro e da minha vontade.

Mas a verdade é que não passo sem o computador!

Sábado, Maio 31, 2008

Por que se embalam os bebés para o lado esquerdo?


Já repararam que as mulheres quando pegam nos bebés ao colo o fazem colocando-os do seu lado esquerdo do corpo?

As investigações confirmam: cerca de 80% das mulheres têm a tendência para
embalar os bebés para o lado esquerdo do corpo, independentemente do ambiente sócio-cultural e da dominância da mão.

Por que fazem a
s mulheres (inconscientemente) isto?

Investigações mostram que a tendência para embalar os bebés para a esquerda surge cedo no processo de desenvolvimento das raparigas, mas que, contrariamente, não existe ou está pouco desenvolvida nos rapazes; e também m
ostram que esta tendência para embalar para o lado esquerdo se reduz com o aumento da idade da criança, desaparecendo mesmo por volta dos 12 meses.

A razão pela qual surgiu esta tendência para embalar os bebés para o l
ado esquerdo é controversa. A tradição diz que é por causa dos batimentos do coração da mãe que acalmam o bebé, mas alguns investigadores não concordam e estão convencidos que tem a ver com a forma como o nosso cérebro está organizado.

Os biólogos sabem, há muito tempo que os dois hemisférios cerebrais não desempenham a mesma função, um fenómeno que é conhecido por lateralização cerebral. Uma das principais diferenças reside no facto do hemisfério direito se ter especializado mais em descodificar a informação com significado emocional. Também se sabe que a maior parte das imagens captadas pelos campos visual e auditivo esquerdos é processada no hemisfério cerebral direito e que, pelo contrário, a maior parte das imagens captadas pelos campos visual e auditivo direitos é processada no hemisfério cerebral esquerdo.

De acordo com isto, ao embalar a criança para o seu lado esquerdo a mãe vê a cara do filho através do seu campo visual esquerdo, promovendo uma via de com
unicação mais directa com o seu hemisfério cerebral direito, considerado como controlador das emoções. Por outro lado, o bebé é também capaz de ver a face esquerda da mãe que é emocionalmente mais expressiva. Assim, bebé e e avaliam-se mutuamente, conseguindo anticipar comportamentos de sobrevivência.

É interesante
verificar que a tendência de embalar o bebé para a esquerda é independente da dominância da mão, ou seja, é independente da mãe ser dextra ou esquerdina, verificando-se tanto nas dextras como nas esquerdinas. Também são interessantes as explicações dadas em relação a este comportamento. Assim, quando se pergunta às mulheres dextras por que razão embalam o bebé para a esquerda, invariavelmente respondem que é para ficarem com a mão dominante livre, mas quando se faz a mesma pergunta às esquerdinas, respondem que seguram o bebé com o braço esquerdo que é o dominante! Por isso, a dominância da mão não pode ser considerada uma explicação para aquele comportamento.

As investigações também descobriram que os grandes símios, os chimpanzés e os gorilas, apresentam a mesma tendência de pegar nos seus filhotes para o lado esquerdo e este comportamento pode estar a dizer-nos que os cérebros dos grandes símios estão organizados de uma maneira muito semelhantes à dos humanos, com os dois hemisférios, esquerdo e direito, especializados em diferentes funções.


De acordo com as invetigações tudo indica que o comportamento em questão, provavelmente se originou num ancestral comum aos símios africanos e humanos, há cerca de 6 a 8 milhões de anos atrás. Se isto for verdade, quer dizer que o comportamento de embalar o bebé para a esquerda antecedeu em algum tempo o aparecimento do enviesamento da destreza encontrada nas mãos dos humanos, aliás, uma característica apenas da nossa espécie.


Embalar o bebé para a esquerda é então um comportamento muito antigo e que nos diz que a natureza valoriza as emoções, pois parece ter seleccionado e facilitado o fluxo de informação afectiva entre a criança e a sua mãe.

E os pais?


Consultas:
Manning JT, Heaton R, Chamberlain AT. Left-side cradling: Similarities and differences between apes and humans. J. Hum. Evol. 1994;26:77–83.
Manning JT, Chamberlain AT. Left-side cradling and brain lateralisation. Ethol. Sociobiol. 1991;12:237–244.


Fotografias retiradas da NET:
1, 2, 3, 4

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Com quem se parecem os bebés?

Depois de um longo período, difícil, estou de volta aos meus posts.

Uma das primeiras coisas que as pessoas perguntam quando nasce uma criança é: Com quem é parecida?

Esta não é uma pergunta inocente apesar das pessoas não se aperceberem disso.

Todos conhecemos o princípio da certeza da maternidade e da incerteza da paternidade. Como sabe o homem que é o pai biológico da criança?

A partir de duas fontes de informação: 1 - certificar-se da fidelidade da mulher na altura da concepção; 2 – verificar a parecença da criança consigo próprio.

De acordo com isto, é razoável pensar que os homens desenvolveram mecanismos psicológicos sensíveis a estas duas fontes de informação; é também razoável esperar que as mulheres tendam a influenciar a percepção dos homens acerca destes aspectos, tentando, por exemplo, convencê-los que foram fiéis e que os filhos recém-nascidos são parecidos com eles.

De facto, existem estudos que mostram que as mulheres realmente estão motivadas a promover a certeza da paternidade dizendo explicitamente ao seu companheiro que os seus filhos recém-nascidos são parecidos com ele, ou seja, que ele é o seu verdadeiro pai. Se fosse apenas o acaso a funcionar, esperar-se-ia que as mães dissessem que os filhos recém-nascidos eram parecidos com os pais em 50% dos casos e nos outros 50% parecidos com elas; mas na realidade isso não acontece pois as mães referem que o bebé é parecido com o pai em 80% dos casos! Também é interessante verificar que os familiares da mãe mostram este enviesamento: 66% diz que o bebé é mais parecido com o pai e apenas 34% refere mais parecenças com a mãe. Ainda mais interessante é verificar que, ao contrário do que seria de esperar, o enviesamento é maior para a família do pai: 71% refere a parecença do bebé com o pai!

E não é tudo. Existe um estudo que sugere a possibilidade de ter havido uma evolução biológica que seleccionou a presença de um “marcador” físico paterno, reconhecível nos filhos. Neste estudo, um certo número de famílias forneceu fotografias dos seus filhos em diferentes idades – 1, 10 e 20 anos. Metade dos filhos eram do género feminino e a outra metade do género masculino. Também foram tiradas fotografias dos pais e das mães. Foi posteriormente pedido aos participantes no estudo (que não conheciam as famílias das fotografias) para tentarem descobrir quem eram os pais e as mães das crianças. Para isso foram-lhes apresentadas, para cada criança, fotografias de 3 mães (uma das quais era a verdadeira) e fotografias de 3 pais (um dos quais era o verdadeiro).

Se as escolhas fossem feitas ao acaso, o resultado correcto seria encontrado em 33.3% dos casos. E foi exactamente isso que aconteceu com as idades de 10 e 20 anos. Já com a idade de 1 ano o resultado foi o seguinte: em 49.2% dos casos os participantes conseguiram associar a criança ao seu verdadeiro pai e isto para as crianças do sexo feminino e do sexo masculino, mas já não foram capazes de associar as crianças às suas mães biológicas!

Estes resultados podem estar relacionados com o facto das mães estarem certas da sua contribuição genética nos seus filhos, quer eles se pareçam ou não com elas; os pais não têm essa certeza.

Em termos evolutivos, se o pai tiver a certeza que o filho é seu, investirá mais nele. Então:
1- os bebés beneficiam em parecer-se mais com o pai biológico
2- a selecção natural deve ter favorecido os homens que possuem marcadores que se expressem visualmente nos seus filhos de modo a saberem que são os verdadeiros pais
3- deve ser vantajoso para as mulheres suprimir nos seus filhos os traços físicos dos seus genes na aparência dos filhos, porque ao fazê-lo farácom que o pai o reconheça como filho

No fundo, os comentários das pessoas em relação às parecenças do recém-nascido, mostram o resultado de muitos milhões de anos de evolução.

Consultas:
Christenfeld, N. J. S., & Hill, E. A. (1995) Whose baby are you? Nature, 378, 669.
Daly, N., & Wilson, M. (1982) Whom are newborn babies said to resemble? Ethology and Sociobiology, 3, 69-78.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Sem título

A minha filha perdeu o bebé.

Sexta-feira, Abril 25, 2008

O que é o "25 de Abril"?


Quando o meu neto (6 anos) chegou ontem a casa, ouvi este diálogo:
- Amanhã não há escola, avô!
- Sabes por quê? - perguntou o avô.

- É por causa de uma flor...
- Um cravo?

- Isso mesmo, avô!

Hoje, voltou ao assunto:
-Mãe, como é que é mesmo o nome das flores que se metem nas pistolas e elas não disparam mais?

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Bactérias, virus e outros parasitas...

Há muito perdido na história da vida, quando o homem começou a domesticar e a criar animais, iniciou, também, um período de grandes mudanças ambientais. Actualmente, essa actividade humana atinge grandes proporções, como tive oportunidade de referir no post “vacas, clima, obesidade e fome - haverá alguma relação?”. Se pensarmos na forma como actualmente obtemos alimento e na forma como a nossa espécie interage com as outras (estou também a lembrar-me dos alimentos trangénicos), percebemos que nos estamos a expor a novos e imprevisíveis riscos de novas doenças provocadas por organismos.

Fazemos e desfazemos, sem nos preocuparmos com os efeitos das nossas acções nos ambientes onde vivem os nossos inimigos que não vemos: bactérias, virus e outros parasitas. Nem sempre percebemos de que modo estes organismos interagem connosco, com as plantas e com os animais que criamos para a nossa alimentação, nem como interagem entre eles. Infelizmente esta falta de conhecimento tem provado ser muitas vezes fatal.

A SIDA é um exemplo óbvio de como uma mudança social e ambiental pode levar à emergência e à propagação de uma nova doença mortal. Neste caso, as convulsões sociais e a migração de populações humanas ao longo de África, as viagens de negócios e de lazer e as mudanças nos comportamentos sexuais de homo e heterossexuais por todo o mundo, modificaram dramaticamente o “ambiente” tornando-o propício para desencadear a epidemia da SIDA. Mas não é só a SIDA. Existem outros exemplos: a febre hemorrágica do Ebola, a gripe H5N1, a febre amarela, o dengue. Aliás, esta última, assustadoramente próxima (ver meu post “Aedes aëgypty e Dengue” sobre este assunto e outros meus posts afins sobre o mosquito Aedes aegypti), é já um enorme problema no Brasil.


A BSE, vulgarmente conhecida por “doença das vacas loucas”, fornece um outro exemplo de como uma aparentemente mudança inócua na cadeia alimentar resultou na transmissão de uma nova doença entre os humanos, uma variante da Creutzfeldt-Jacob (ver meu post “Creutzfeldt-Jacob, BSE, Scrapie”). No decurso da evolução, os ruminantes, como as vacas e as ovelhas, desenvolveram a sua moderna anatomia e fisiologia, comendo plantas, especialmente, ervas e, à medida que evoluíram também os seus parasitas evoluíram, num processo co-evolutivo. Alguns parasitas que têm como alvos primários os animais de pastagem podem também infectar muitas outras espécies de ruminantes e até mesmo os humanos. Mas a maior parte dos parasitas estão restringidos a um simples hospedeiro primário e muito raramente “saltam” para um novo hospedeiro ou até nunca o fazem.

Geralmente, as relações hospedeiro-parasita permanecem bastante estáveis, a não ser que uma grande mudança ambiental aconteça. Ora acontece que as vacas e as ovelhas permaneceram comedoras de plantas ao longo da história da humanidade, até que, não há muito tempo, os agricultores as começaram a alimentar com suplementos dietéticos contendo os desperdícios de outras vacas e ovelhas. E esta é uma mudança dramática na cadeia alimentar destes animais herbívoros pois transformou as vacas e as ovelhas em animais parcialmente carnívoros ou até mesmo em … canibais!

Qual o resultado?

O que acontece é que enquanto estes desperdícios, utilizados como suplementos alimentares forneciam as proteínas adicionais que favoreciam um crescimento mais rápido das vacas, também abriram novas portas através das quais certos agentes infecciosos puderam cruzar a barreira das espécies, “saltando” das ovelhas para as vacas, propagando-se com extraordinária eficiência por entre as manadas de vacas e “saltando” finalmente para os humanos!

Será este apenas um exemplo? Penso que não. Provavelmente, com todas as mudanças que nós introduzimos nos nossos porcessos de “criar” alimentos, novas, insuspeitas e potenciais ameaças à nossa saúde podem estar à espreita do momento adequado para atacar.

Quando aprenderemos a lição?

Hum…

Sábado, Abril 12, 2008

Creutzfeldt-Jacob, BSE, Scrapie

Um dia destes vi no telejornal a notícia do aparecimento de um caso de doença de Creutzfeldt-Jacob em Espanha. Eu não como carne de vaca. Pelas razões que já referi num post anterior, mas também por esta.

A carne de vaca pode contaminar as pessoas que a comem? Infelizmente ainda ninguém respondeu claramente a esta questão.

Que estranha doença é essa que ataca as “vacas loucas”? De onde vem a epidemia? Como se tramsmite? Pode passar de uma espécie a outra?

A doença foi identificada pela 1ª vez em 1986, no Reino Unido, tendo até hoje matado milhares de bovinos em muitos países, incluindo o nosso.

Em princípio, a doença que ataca as “vacas loucas” pertence ao grupo das encefalopatias espongiformes sub-agudas. Depois de um período de incubação, que pode variar entre um mínimo de 6 meses a 4 ou mais anos, os primeiros sinais da doença começam a aparecer, mas só podem ser confirmados através de um exame microscópico que mostra grandes “buracos” no corpo das células nervosas do cérebro do animal. Ao fim de algum tempo, o número destes “buracos” é tão grande que o cérebro fica com o aspecto de uma esponja - daí o termo médico “espongiforme”. Isto quer dizer que, o gado pode estar clinicamente normal, com testes negativos à BSE (do inglês “Bovine Spongiform Encephalopathy”), mas vários dos seus tecidos podem estar infectados.
Nenhum outro sinal exterior permite “ver” claramente a doença, de modo que o criador de gado, apenas pode notar a mudança de comportamento do animal: mostra-se nervoso, dá violentos coices quando nos aproximamos, mantém-se afastado do resto da manada, esgravata o solo e mexe continuamente com a cauda. Mais tarde, no último estádio da doença, aparecem as alterações locomotoras: marcha hesitante, acompanhada de tremores, assumindo o animal uma posição peculiar, em que os membros posteriores ficam encolhidos sob o corpo e a cauda fica levantada.

Além das encefalopatias animais existem três formas de encefalopatias humanas - a doença de Kuru, a de Creutzfeldt-Jacob e o Síndroma de Gertsmamnn-Strausser. O que é inquietante, é que o agente responsável por todas elas (humanas e animais) é o mesmo - não é um vírus, muito menos uma bactéria, ou seja, é muito difícil de defini-lo; os cientistas chamam -lhe “prião”.

Mas o que é o prião?

Segundo a hipótese mais em voga, o prião é uma pequena partícula infecciosa, de natureza proteica, mas o mais grave, é que esta partícula, não desencadeia nenhuma resposta do sistema imunológico (sistema de defesa contra agentes estranhos ) do animal infectado! E isto por quê? Porque a sua constituição é muito parecida à de uma proteína natural, que existe normalmente nas células nervosas e nos linfócitos (tipo de glóbulos brancos), de modo que o organismo do indivíduo infectado não reconhece entre a proteína “má” e a “boa”! Resultado: o organismo não se defende. Aliás, a proteína “má” não é mais do que a proteína “boa” que ao sofrer uma alteração conformacional se transforma na proteína “má”. Quando esta proteína “má” entra num animal, ou num humano tem a capacidade de transformar as proteínas “boas” em “más”, num processo que se autoreplica. Esta explicação, que é totalmente nova, vai contra o dogma central da Biologia que diz que para haver replicação, tem de haver informação genética, codificada por um ácido nucleico, DNA ou RNA. Mas neste caso ele não existe, só existe proteína! Por isso existe muita controvérsia à volta deste agente infeccioso incomum.

Como foram as vacas infectadas?

A partícula infecciosa, o tal “prião”, resiste às desinfecções químicas que matam a maior parte dos vírus e das bactérias. Pode por exemplo viver mais de 4 meses numa solução de formol de alta concentração (20%), resiste a altíssimas temperaturas em auto-claves, resiste ao bombardeamento com radiações intensas e à luz ultra-violeta potente. Indestrutível!?

São exactamente estas características a causa provável da contaminação das vacas inglesas. Explico. Os criadores de ovinos, para aumentar a ração proteica diária, costumavam a alimentar os carneiros e ovelhas com suplementos de farinhas de carne, preparadas com “resíduos” dos próprios animais, ou seja, com tudo aquilo que não comemos. Percebe-se que estes resíduos, ossos, pedaços de carne, peles e sangue, contêm numerosas bactérias tóxicas que podem envenenar os alimentos, sendo pois imperiosa a sua desinfecção, pelo que os restos eram tratados através de processo químicos, difíceis, perigosos e caros. Para diminuir os custos, os industriais ingleses passaram a fazer essa desinfecção através de um aquecimento que destruía a maior parte dos vírus e bactérias. Mas, não destruía o tal prião. Agora sabe-se disso, mas na altura, ninguém sequer suspeitava da sua existência!

Também era comum nos carneiros, a “scrapie” (numa tradução livre “tremideira dos carneiros”), uma doença neurológica que estava restrita aos carneiros. As farinhas suplementares eram preparadas com “resíduos” de carneiros, restos provenientes quer dos matadouros, quer de animais mortos por acidente ou abatidos por doença. Os restos provenientes dos matadouros, pertenciam a animais controlados, e, portanto, sãos; mas os animais abatidos por doença, podiam muito bem estar infectados com uma encefalopatia, o que era bastante grave.

Quando se passou a alimentar as vacas com estas farinhas animais que podiam estar contaminadas (mas não se sabia), criaram-se as condições para o tal prião “mau” saltar a barreira entre as duas espécies. A partir daqui a doença, chamada BSE, alastrou no mundo e, das vacas, passou para os humanos, aparecendo como uma nova variante da doença de Creutzfeldt-Jacob!

Resumindo: a doença passou dos carneiros, via farinha de carne, para as vacas.

A verdade é que têm surgido casos de encefalopatias em humanos (nomeadamente de doença de Creutzfeldt-Jacob) nas zonas onde também se registaram epidemias de BSE. O contágio faz-se através da ingestão de alimentos que tenham sido contaminados com tecido nervoso ou com instrumentos que tenham estado em contacto com tecido nervoso infectado. Uma vez entrado no cérebro, o agente infeccioso pode ficar dormente durante vários anos (períodos que podem até ser de 10 a 15 anos), ao fim dos quais pode activar-se. Quando isto acontece, começa a destruir as células cerebrais, deixando no lugar delas, grandes áreas de tecido esponjoso. Ao mesmo tempo formam-se grandes placas formadas por aglutinação dos priões anormais. A doença desenvolve-se: começam a aparecer distúrbios psiquiátricos ou problemas a nível dos sentidos. Posteriormente aparecem problemas de coordenação muscular a nível do equilíbrio, da fala, espasmos musculares, problemas de audição, de visão e perda de memória. Finalmente surge o coma e a morte.

Para fazer face a estes problemas, algumas medidas têm sido tomadas:
➢ Os animais atingidos pela doença são obrigatoriamente abatidos e incenerados e as manadas onde tais casos são registados.
➢ A partir de Julho de 1988, foi proibida a associação de proteínas animais às rações para a alimentação de bovinos.
➢ Porque o agente infeccioso se concentra nas células do sistema nervoso, desde meados de 1990, foi proibido o uso de mioleira, medula espinal, timo, baço, amígdalas e tubo digestivo de gado bovino com mais de 6 meses de idade, para a alimentação humana e fabrico de medicamentos e vacinas.
➢ Proibição da importação de animais vivos ou de produtos de bovinos dos países onde existe BSE.
➢ A exportações de carne em carcaça devem sempre ser acompanhadas de um certificado, atestando que o animal é proveniente de uma manada na qual nenhum caso de encefalopatia tenha aparecido, num período anterior de 2 anos.
➢ O gado vivo exportado deve ter menos de 6 meses e deve possuir um certificado atestando que o animal é proveniente de uma vaca sã.
➢ Outras...

Acreditam nestas medidas? No seu cumprimento?

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Pois é. Depois do meu neto fiquei eu doente. Já estou quase recuperada e quase pronta para um novo post. Até lá.

Terça-feira, Abril 01, 2008

Ter febre, é bom ou mau?

No fim-de-semana que passou, o meu neto apareceu com febre – sinal que estava doente. Acontece com a maior parte das crianças, aparecerem com febre, sem mais nem menos. Pensamos logo: deve ser uma virose, amigdalite, ou até, alguma dessas doenças infantis. Já se percebeu que gosto de “pegar” em factos do quotidiano, para, a partir deles, perceber a razão de tal acontecimento, tendo como pano de fundo, como linha orientadora, o nosso percurso evolutivo sobre este planeta. Ter febre, é bom ou é mau?

Quando a febre aparece e se consulta o médico (ou médica), o mais provável é que receite um antipirético, que pode ser ácido acetilsalicílico (aspirina), paracetamol ou iboprufeno, com a recomendação de manter a febre abaixo dos 38ºC e esperar 3 dias antes de se passar a outras soluções. A verdade é que estas drogas que reduzem a febre podem prolongar a doença conforme dados relativamente recentes. Assim como a humanidade tem sido bombardeada com inúmeras doenças ao longo do tempo em que tem passado aqui na Terra, também tem desenvolvido muitos meios de as combater: a febre constitui um desses mecanismos naturais contra a doença.

Não é só o homem que precisa da febre para combater a doença - um exemplo interessante é dado pelos lagartos que quando estão com uma infecção, procuram uma pedra quente para se aquecerem e assim aumentarem a sua temperatura corporal. Esta subida de temperatura combaterá a infecção. Os lagartos que não conseguirem encontrar uma pedra quente provavelmente morrerão.

Os lagartos têm aquele comportamento (as nossas lagartixas incluídas) porque são animais de sangue frio e não conseguem produzir calor nem regular a sua temperatura corporal. Os mamíferos (como nós) e as aves, conseguem regular a sua temperatura corporal pois são capazes de produzir calor e regular essa produção de calor, consoante a necessidade. Em resposta à infecção, o nosso organismo fica mais quente, fica com febre, o que é importante por duas razões: 1- as nossas enzimas responsáveis pela destruição dos microorganismos que causam essa infecção funcionam melhor a uma temperatura superior a 38ºC; 2- as substâncias tóxicas produzidas pelos microorganismos têm um efeito mais acentuado a temperaturas inferiores a 38ºC. Se a febre for muito alta torna-se perigosa ou mesmo fatal, mas se a febre mantiver a temperatura corporal à volta de 38°C ou 39°C, acaba por ser benéfica para a saúde.


Um outro exemplo interessante, data do início do séc. XX e foi conhecido através das observações do médico Julian Wagner-Jauregg quando verificou que a sífilis era raramente vista nos locais onde a malária era comum. Nessa altura a sífilis matava 99% das pessoas infectadas! Wagner-Jauregg infectou propositadamente algumas pessoas com malária, produzindo febre alta e verificou que 30% dos doentes sobreviveram, o que representou um ganho extraordinário numa doença que matava 99% dos infectados. Parece que a febre proveniente da malária aparentemente curou a sífilis.

Mais recentemente um estudo verificou que as crianças infectadas com varicela e tratadas com acetominofen levaram um dia a mais para se curarem do que as não foram tratadas. Num outro estudo infectaram-se propositadamente pessoas com um tipo de vírus da gripe ministrando posteriormente a metade delas um antipirético e à outra metade um placebo; as pessoas que receberam o antipirético apresentaram um maior congestionamento nasal, uma pior resposta em anticorpos e um período ligeiramente maior de doença.

Ao mesmo tempo que a febre aumenta, diminui a quantidade de ferro no organismo e esta também parece ser uma resposta evolutiva à presença de microorganismos que causam infecções. As bactérias alimentam-se de ferro, proliferando. Quando uma pessoa fica infectada o corpo produz uma substância química mediadora que reduz a quantidade de ferro no sangue. Ao mesmo tempo as pessoas reduzem espontaneamente a ingestão de alimentos ricos em ferro e o corpo reduz a absorção de ferro no intestino. Os humanos aparentemente desenvolveram mecanismos para porem as bactérias a passar fome e assim combaterem a doença rapidamente.
Quando estamos a ingerir suplementos de ferro (e por vezes até nem temos necessidade disso) estamos a interferir
com o processo natural de combater as infecções. Para combater a falta de ferro estamos a aumentar a taxa de infecções.

Será que os médicos sabem disto?

Em suma, os humanos, ao longo da evolução, entraram numa corrida armada com os micróbios, desenvolvendo mecanismos para os combater; os micróbios, por sua vez, também desenvolveram soluções contra as nossas armas e nós desenvolvemos respostas a essas soluções e assim entramos numa corrida armada que dura até aos nossos dias e que persistirirá enquanto houver homens.

A propósito: o meu neto tomou um antipirético. Como o médico mandou!


Consultas:
Kluger, M. J. (1991). The adaptative value of fever. In P.A. MacKowiac (Ed.), Fever: Basic measurement and management (105-124), New York:Raven Press.
Nesse, R. M., & Williams, G. C. (1994). Why we get sick. New York Times Book Random House.
Doran, T.F. et al. (1989). Journal of Pediatrics, 114, 1045-1048.
Graham, N. M., et al. (1990). Journal of Infectious Diseases, 162, 1277-1282.

Terça-feira, Março 25, 2008

Aedes aëgypty e Dengue

Em Novembro e Dezembro passados, escrevi alguns posts sobre o Aedes aëgypti, o mosquito vulgarmente conhecido, aqui na Madeira, por “mosquito de Santa Luzia”: A.aëgypti_na_Madeira; Desinfestações; crianças_e_mosquitos; A.aëgypty_ao_vivo; mais_vale_tarde; panfleto; fotografias; Funchal_by_Aedes.

Agora, com a volta da Primavera, com as temperaturas a subir e, não acreditando nas medidas tomadas pelas autoridades sanitárias locais, volto ao assunto que nunca deixou de constituir uma grande preocupação. Um leitor assíduo do meu blog, pergunta: “Estando a Dengue a evoluir imenso no Brasil, isto é Rio de Janeiro, há possibilidade de vir para a Madeira?!” Acho que tocou num ponto importante e que faz lembrar a importância de estarmos informados e conscientes de termos os comportamentos adequados para limitar o número destes insectos e impedir que o vírus do dengue se instale aqui.

Apesar de não ser especialista em insectos, nem especialista em epidemiologia, a minha resposta, de acordo com o que sei da bioecologia do mosquito (uma nota para dizer que sou bióloga e etóloga de formação) é SIM.


Explico o raciocínio simples:


1- O vírus do Dengue é um arbovírus e são conhecidos quatro serotipos: DEN1, DEN 2, DEN 3 e DEN 4. Todos podem causar quer a forma clássica da doença como a sua forma hemorrágica que é mais grave. No Brasil os mais comuns são os tipos 1 e 2, mas também aparece o tipo 3. O tipo 3 parece ser o mais virulento, seguido do tipo 2, tipo 4 e tipo 1. No entanto o tipo 1 é o que desencadeia grandes epidemias num curto espaço de tempo.


2- O principal vector dos virus do dengue é o mosquito
Aedes aëgypti.

3- O mosquito de Santa Luzia é o
Aedes aëgypti. Até agora, pelo que se sabe, ainda não existe dengue na Madeira (reparem no termo “ainda”).

4- No Rio de Janeiro a situação de epidemia de dengue está ficando incontrolável, pelo menos a fazer fé nas notícias e contando com o secretismo que sempre as autoridades sanitárias e políticas fazem destes assuntos, para evitarem alarmismos. E não é só no Rio!


5- De há uns tempos para cá ficou de moda fazer viagens ao Brasil ( são baratas!) e o Rio é realmente uma grande atracção e tentação!


6- Quando uma fêmea
Aedes aëgypti (os machos alimentam-se de açúcares que extraem das plantas) se alimenta do sangue de uma pessoa infectada, os vírus multiplicam-se no intestino do insecto, passando depois para outros órgãos e para as suas glândulas salivares. Este processo (incubação) leva 8 a 12 dias e apartir daqui fica apto para infectar outras pessoas durante a picada para se alimentar.

7- Existe também a possibilidade de transmitir o vírus logo a seguir se a refeição numa pessoa infectada for interrrompida e picar uma segunda vítima para completar a refeição.


8- Esta fêmea tem a capacidade de produzir ovos já infectados que quando eclodirem produzem uma geração de mosquitos transmissores.

9- Durante a sua vida, mais ou menos 3 meses, a fêmea faz, em média, 10 posturas cada uma com 100 a 150 ovos.


10- Os machos que nascem de ovos infectados também podem transmitir os vírus às fêmeas durante a relação sexual, infectando-as.


11- Algumas estimativas indicam que uma única fêmea pode contaminar até 300 pessoas.


12- Quando uma pessoa é picada por um mosquito infectado (uma fêmea) os vírus introduzidos na sua corrente sanguínea entram no baço, no fígado e nos tecidos linfáticos onde se multiplicam – é o período de incubação que pode durar de 3 a 15 dias ( a média são 5 a 6) e sem nenhum sintoma. Após este período os vírus entram de novo na corrente sanguínea e aparecem os sintomas que são muitas vezes confundidos com uma gripe.


13- Isto quer dizer que pode muito bem entrar na Madeira uma pessoa infectada e sem nenhum sintoma. Provavelmente, se não estiver alertada, não relacionará a “gripe” com uma picada de insecto no Brasil … ou outro local onde exista epidemia de dengue.


14- Como o
agente transmissor já cá está, então a possibilidade de transmissão da doença existe, pois a pessoa em questão pode ser picada, aqui, nesse período em que os vírus estão a circular no seu sangue.

15- Devido à capacidade reprodutora e aos hábitos destes insectos, é fácil perceber a gravidade da situação. No entanto, a probabilidade destes “encontros imediatos de 3º grau” acontecerem é baixa e está, obviamente, ligada ao número de insectos presentes no local onde se encontra a pessoa infectada.


Daí a necessidade de, como acima referi, manter a população de
A. aëgypti com poucos indivíduos, impedindo a sua reprodução, eliminando os locais de oviposição e criadouros de larvas.

Sábado, Março 22, 2008

Vou ser avó pela 3ª vez!

Vou ser avó pela terceira vez. A minha filha está grávida e, como a quase totalidade das grávidas, está enjoada. Eu também enjoei bastante nas minhas três gravidezes e não conheço nenhuma mulher que não tivesse também ficado enjoada nos primeiros meses de gravidez. Ao contrário do que possa parecer estou muito satisfeita que ela esteja enjoada; se assim não fosses estaria preocupada! Como?

Apesar dos termos “enjoada” e “mal-disposta” implicarem que alguma coisa está mal, a investigação mostra que é exactamente o contrário: o enjoo da gravidez representa uma adaptação evolutiva que impede as mães de ingerirem e absorverem substâncias teratogénicas (toxinas que podem ser nocivas ao normal desenvolvimento do bébé). Assim durante a gravidez coloca-se à grávida o problema de se alimentar e ao mesmo tempo evitar os custos da ingestão de toxinas.

Algumas evidências apoiam esta hipótese do enjoo ser uma adaptação que previne as mulheres de ingerirem alimentos que prejudicarão feto em desenvolvimento:

1- De um modo geral, os alimentos que as grávidas acham repugnantes parecem corresponder àqueles que possuem as doses mais elevadas de toxinas. Se ingerirem esses alimentos o mais provável é que os vomitem. O vómito impede as toxinas de entrarem no seu sangue e de passarem pela placenta para o feto em desenvolvimento, constituindo assim uma importante função.

2- O enjoo da gravidez acontece precisamente na altura em que o feto é mais vulnerável à acção das toxinas, mais ou menos, cerca de 2 a 4 semas após a concepção, altura em que muitos órgãos estão a formar-se. Com o passar do tempo o enjoo decresce por volta da 8ª semana e geralmente desaparece completamente na 14ª, o que coincide com o fim do período sensível do desenvolvimento dos órgãos.

3- As mulheres que não enjoam durante os primeiros três meses de gravidez, têm uma probabilidade 3 vezes maior de ter um aborto espontâneo, ou seja, as mulheres que enjoam têm uma maior probabilidade de levar a gravidez a bom termo.

Por isso estou satisfeita com o enjoo da minha filha. E muito feliz porque vou ter mais um neto! Ou mais uma neta!

Domingo, Março 16, 2008

A carne e a discriminação entre os géneros

Dois comentários no meu último post, fizeram-me lembrar a ligação que existe entre o consumo de carne e o modo como a preparamos, com certos aspectos tradicionalmente ligados à masculinidade. Andei a rever a matéria e encontrei coisas interesssantes. (Baseei-me no capítulo “Meat and gender hierarchies” do livro indicado no meu último post, para escrever este).

Quando nos alimentamos estamos a comer a natureza - nem sempre a comemos da mesma forma, ao longo da nossa passagem pela Terra, mas a verdade é que somos o único animal que cozinha o alimento, criando a principal fronteira entre a civilização e o mundo natural. Segundo o antropólogo Lévi-Strauss, cozinhar os alimentos é um processo universal segundo o qual a natureza é transformada em cultura, sendo os diferentes métodos de cozinhar apropriados para serem usados como símbolos de diferenciação.

Talvez não seja por acaso que gostamos mais de carne assada do que carne cozida. Talvez isso tenha a ver com o nosso passado evolutivo desdes os primeiros colectores e caçadores, aos agricultores e criadores de gado ancestrais.

A maneira como a carne é cozinhada fornece uma pista útil para compreender a natureza das pessoas, os seus valores, as suas instituições e o seu modo de ver o mundo. As culturas assentes no consumo de carne preferem assá-la (ou grelhá-la); as sociedades mistas, que tanto criam gado como também cultivam a terra, tanto assam como cozem os alimentos; as sociedades agrícolas, raramente comem carne e cozem mais as suas plantas.

Existe uma diferença psicológica entre assar ou cozer os alimentos. Assar é um processo que está mais perto do alimento cru, sendo a carne directamente exposta ao fogo. O alimento cozido por outro lado, requere um processo de mediação: é colocado numa panela com água e depois colocado no fogo, sendo a panela e a água os mediadores entre a carne e o fogo aumentando as fronteiras entre a cultura e a natureza. Já o processo de assar a carne mantém apenas uma leve fronteira entre a civilização e o mundo natural, além de que a carne é usualmente assada na sua parte exterior ficando o interior vermelho ou mesmo em sangue, tornando o alimento mais parecido com a carne do animal do que a carne cozinhada.

Assar a carne sempre esteve associado com poder, privilégio e celebração enquanto que cozer o alimento sempre esteve associado com valores curativos e regenerativos, (o célebre caldinho de galinha) e com frugalidade.

Na maior parte das culturas, assar a carne está reservado para ocasiões especiais, dias de festa, banquetes, domingos, casamentos, e está associado a robustez, a virilidade; a cozedura é mais rotineira e tem menor estatuto.

A carne vermelha, cheia de sangue, especialmente a de vaca, é apreciada devido a algumas qualidades tradicionalmente aceites: confere força, aumenta a agressividade, acende a paixão, estimula a sexualidade. Por isso, tem sido associada com a masculinidade e as qualidades masculinas enquanto que as carnes brancas (sem sangue) têm sido associadas com a feminilidade e qualidades femininas. Não terá sido por acaso que, a antropóloga Peggy Sand, sem nenhuma surpresa, verificou que as economias baseadas nos animais são dominadas e conduzidas pelos homens enquanto que as baseadas na agricultura são mais orientadas para o poder feminino (note-se que, de um modo geral, as plantas são mais percebidas como uma dádiva da natureza e menos como uma presa ou como uma propriedade, como acontece com os animais).

Os homens têm desde há muito usado a carne como uma arma de controlo social, como meio de fazer com que as mulheres aceitem um estatuto de subserviência na sociedade. Um sítio onde a hierarquia da carne é muito evidente é na Inglaterra. Numa primeira pesquisa feita em 1863, os investigadores verificaram que nas comunidades rurais as mulheres e as crianças “comiam as batatas e olhavam para a carne”. Nas classes pobres urbanas as mulheres reservavam a carne para os seus maridos acreditando que eles precisavam dela para desempenharem o seu papel de provedores da família. As mulheres comiam carne uma vez por semana mas os homens quase diariamente.

Pouco mudou nos hábitos de consumo de carne nas classes pobres trabalhadoras urbanas e rurais nestes últimos cento e tal anos. Nos locais onde a carne é rara ou cara é quase sempre oferecida em primeiro lugar ao chefe de família. Mas, mesmo em países como os Estados Unidos, onde a carne é abundante e barata, a norma prevalecente coloca os homens no topo da hierarquia. Eu lembro-me disso acontecer aqui, quando era pequena. Sempre me fez confusão verificar, quando ia a casa de alguém conhecido que os melhores nacos de carne eram dados ao dono da casa. Fazia-me mais confusão ainda porque na minha casa os melhores bocados eram para os filhos.

Ironicamente, apesar da nossa moderna cultura, altamente tecnológica, se ir afastando cada vez mais do trabalho físico, alguns homens parecem muito determinados em perpetuar o mito masculino associado à carne, talvez por ela representar o último reduto do machismo. Existem poucas dúvidas quanto ao forte simbolismo que liga o consumo da carne e o machismo nas culturas ocidentais, como mostram as estatísticas sobre violência doméstica que revelam uma forte ligação entre eles - muitos homens usam a ausência de carne como pretexto para a violência contra as mulheres, acreditando que, a sua masculinidade está a ser negada ao não lhes ser servida uma refeição de carne.

Um outro aspecto interessante é o processo de assar a carne ser uma actividade dominantemente masculina, não só entre muitas tribos de indios americanos e outras sociedades de caçadores, como nas sociedades ditas ocidentais. Aliás, basta deitar atenção: quando se faz um churrasco, quando se faz a nossa espetada, usualmente são os homens que tomam conta da carne. Já o processo de cozer a carne é uma actividade predominantemente feminina. Ninguém esperaria ver cowboys a cozerem a carne!

A conclusão a que chego, é esta: somos animais altamente políticos e a carne que comemos e a forma como a comemos, representa muito da nossa forma de fazermos política e de estruturarmos as nossas sociedades. Isso está enraizado nas práticas alimentares dos nossos antepassados (não estou a justificar o machismo!).

Veio-me agora à cabeça que nos talhos, são os homens que dominam. E nos matadouros. E nas caçadas. Por que será?

Domingo, Março 09, 2008

vacas, clima, obesidade e fome - haverá alguma relação?

Um comentário no meu último post fez-me lembrar que, em tempos (1993), escrevi um artigo para publicar num jornal local que falava exactamente do problema enorme que então nos afligia, e, que nos aflige hoje ainda mais que se prende com a criação e o consumo de carne de vaca. São algumas notas que continuam actuais, apesar de, infelizmente, alguns números apresentados serem hoje em dia muito maiores.

Há mais de 20 anos que não como carne de vaca nem ela entra em minha casa! Vivo muito melhor sem ela. Por todas as razões. E você come carne de vaca?

Se estiverem interessados existe um livro de Jeremy Rifkin, Beyond Beef – The rise and fall of the cattle culture, London, Harper Collins Publishers, 1992, onde recolhi, na altura, muita da informação apresentada.

É este o texto:

Quando vejo as tempestades que assolam o mundo, só me vem à cabeça que em parte, as culpadas são as vacas.
Quando vejo a miséria e a fome neste mundo superlotado, vem-me de novo à cabeça que as culpadas são as vacas.
E como somos nós que criamos as vacas, então, tenho a certeza que os culpados somos NÓS.

A relação entre homens e bovinos remonta à noite dos tempos, desde os nómadas do Neolítico que invadiram o Médio Oriente e a Europa, à procura de novas pastagens para as suas manadas, semeando o terrror entre os povos agrícolas sedentários e mais pacíficos, passando pelo rei Narmer-Menes, (cerca de 3200 anos A.C.) que instaurou o culto do Touro Ápis, nascido de uma vaca fecundada por um raio de lua, e por Cristóvão Colombo que levou para o Novo Mundo, 12 vacas espanholas (em 1870, já havia 13 milhões delas nas pampas da Argentina), até os 1,2 bilhiões de bovinos que actualmente existem sobre a Terra e cujo peso é superior ao peso das pessoas, ocupam quase 24% dos solos e consomem cereais que poderiam alimentar centenas de milhar de pessoas.

Para criar uma vaca é necessário alimentá-la com ervas e depois engordá-la, normalmente com um cereal. É o que acontece com alguns 100 milhões de bovinos americanos que primeiro são alimentados no pastos e depois engordados com milho; estas vacas comem 220 milhões de toneladas de milho por ano, duas vezes mais que a população humana deste país. Segundo Rifkin, 600 milhões de toneladas de grão são utilizadas por ano no mundo, para a alimentação do gado. Em vez disso, poder-se-ia plantar alimento para mil milhões de pessoas.

Nos anos sessenta, muitos países da América do Sul, com a ajuda do Banco Mundial e do Banco Inter-Americano para o Desenvolvimento, começaram a transformar milhões de hectares de floresta tropical e de terras agrícolas, em pastagens para engordar o gado destinado ao mercado internacional. Na América do Sul, existem 9 vacas para 10 homens e na Austrália 14 bovinos para 10 homens. Segundo Rifkin, esta “bovinização" faz parte de um objectivo das grandes multinacionais para criar um mercado mundial único para a produção e distribuição da carne de vaca. Com 22% da produção, os E.U. dominam o mercado e detêm o record de todas as categorias de consumo de carne: cada cidadão americano consome na sua vida, 7 vacas de 500 Kg, ou seja, duas vezes mais que o europeu e dez vezes mais que o japonês.

Este actual consumo de carne representa um esbanjamento, num mundo onde domina a miséria, porque ao consumir carne se está a perder grande quantidade de energia que de outro modo daria para alimentar muito mais pessoas. Para compreeender a enormidade do problema, é necessário examinar a biologia das cadeias alimentares e compreender como elas são manipuladas e deformadas para servir os nossos interesses.

Imaginemos a cadeia alimentar erva – gafanhoto – rã – truta – homem. Percebe-se neste esquema que os gafanhotos se alimentam de ervas, que as rãs comem gafanhotos, que as trutas comem as rãs e que nós, por fim, comemos as trutas.

Se forem necessárias 300 trutas para alimentar um homem, durante 1 ano, são necessárias 90.000 rãs para alimentar essas trutas, 27 milhões de gafanhotos para alimentar as rãs e cem mil toneladas de erva para alimentar os gafanhotos. Isto porque em cada etapa da cadeia há uma perda de 80 a 90% da energia alimentar, o que significa que apenas 10 a 20% da energia é transferida para o elo seguinte. Ora os bovinos são os “conversores de energia” menos eficazes: para fazerem 50 Kg de proteína necessitam consumir 790 Kg de proteína vegetal.

Além disso, o gado liberta grande quantidade de metano, um gás que contribui para o efeito de estufa, com as consequente alterações do clima em todo o mundo. Os animais produzem metano de dois modos: 1- pela digestão, 2 – pelas dejecções, ou melhor, pela maneira como o homem gere estas últimas.

O alimento ingerido pelos bovinos fermenta no seu estômago, que é formado por várias cavidades sucessivas, onde proliferam milhares de bactérias, dando origem ao metano “digestivo” - 4 a 10% da energia bruta ingerida perde-se na forma de metano. Nos animais monogástricos (com um só estômago como o porco) a perda é menor, entre 0,5 e 2%. A quantidade produzida depende naturalmente do tamanho do animal e do seu modo de alimentação (um animal alimentado com alimentos compostos ingere mais energia que um animal na pastagem).

No total, 74 milhões de toneladas de metano são lançadas cada ano para atmosfera pelos criadores de gado. Destes, 74% são imputáveis aos bovinos, 8 a 10% aos carneiros e aos búfalos, o resto aos porcos, cavalos, mulas, camelos, burros e aves. Hoje em dia alimentamos vacas de modo a produzirem mais carne e mais leite e em consequência disso a quantidade de metano libertada é maior. Os números falam por si: em 1983 um bovino médio libertava, em média, 35 Kg de metano por ano; em 1990, libertava 45 Kg.

Mas não é só a digestão que liberta metano; a gestão dos dejectos animais liberta mais metano. O paradoxo é que estas emanações nocivas para a tmosfera resultam precisamente de medidas de protecção ambiental. Com efeito, para lutar contra a poluição das águas pelos nitratos, incitou-se os proprietários de culturas intensivas de gado ( especialmente de porcos) a não espalhar os seus dejectos sobre as superfícies ( terras ou pradarias) mas a armazená-los o maior tempo possível em cubas estanques. Infelizmente estes dejectos fermentam na ausência do ar e libertam tanto mais metano quanto maior for o período de armazenagem (particularmente no Verão, onde a temperatura ambiente reforça a produção de metano).

Muito havia a dizer acerca do avanço da desertificação que é causada pelo pasto em demasia, pelo excessivo cultivo, pela desflorestação e por técnicas impróprias de regadio, constituindo a produção de gado o factor com mais peso em todas estas causas.

Então, além de aumentarem a quantidade de metano na atmosfera, as vacas são também responsáveis pela erosão dos solos, pela destruição das florestas tropicais ( na Amazónia, milhões de hectares de floresta tropical foram trnasformados em pastagens para engordar manadas destinadas ao mercado internacional), pelo esgotamento dos recursos de água, além de terem criado a civilização de obesos, enchendo-nos de colesterol, cancros e de doenças cardio-vasculares, tornando-nos os mais gordos de toda a história da humanidade.


Por outro lado o culto moderno da vaca, leva à divisão do mundo entre os que a comem ( e que por ficarem gordos gastam tempo, dinheiro e energia emocional para emagrecerem) e os que não a podem comer (que vêm os seus corpos irremediavelmente raquíticos, parasitados, doentes, intelectualmente diminuidos), contribuindo assim para o racismo e a descriminação social.

Por tudo isto é urgente “salvar o mundo destes animaizinhos” (ou melhor dos que os criam!); bastaria para issso que cada um de nós decidisse comer duas vezes menos carne de vaca que antes. Talvez houvesse ainda alguma esperança para a humanidade!

Nem sequer foi preciso falar nas “vacas loucas”.

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Gosta de bróculos?

Hoje o meu neto (6 anos) disse à mãe que tinha saudades de comer… bróculos!
Este seu desejo fez-me lembrar que, de um modo geral, as crianças não gostam de bróculos e fazem tudo o que podem para não os comer. Haverá algum motivo escondido?

As crianças, de um modo geral evitam comer certos vegetais como bróculos, couves de bruxelas, couve-flor, nabos, couves. E têm razão para isso. Estes vegetais, contêm certas substâncias, os glucosilatos que são, na realidade, tóxicas para o organismo.

Estas toxinas bloqueiam, em parte, a capacidade da glândula tiróide em usar o iodo necessário ao fabrico das suas hormonas. Deficiências no funcionamento desta glândula podem resultar em atraso mental e no retardamento da maturação sexual, nas zonas onde o meio ambiente é pobre em iodo, nomeadamente nas zonas longe do mar (Valha-nos isso!). O que se pensa é que deve ter havido, ao longo da nossa evolução fortes pressões selectivas que nos levaram a detectar (saborear) os compostos anti-tiróide presentes nos alimentos.

Numa perspectiva evolucionista, faz muito sentido para os humanos que vivem em zonas onde o iodo é escasso, desenvolverem papilas gustativas, sensíveis aos glucosilatos, de modo a evitarem os alimentos que os contêm. Quem conseguir terá mais hipóteses de sobreviver.

Acontece que umas pessoas têm a capacidade de “sentir” a presença dessas toxinas nos alimentos e outras não, e isso está relacionado com a sua herança genética. Mas este aspecto também só é importante se a pessoa viver numa zona pobre em iodo.

Para complicar a coisa, acontece que estas toxinas têm um efeito secundário: têm capacidade anti-cancerígena.

Então é assim: 1 –num ambiente pobre em iodo, as pessoas sensíveis às ditas toxinas, são dominantes, porque conseguem evitá-las, não comendo determinados alimentos; 2 – num ambiente rico em iodo, quem não consegue detectar as tais toxinas está em vantagem porque recebe os efeitos anticancerígenos dos… bróculos, couves, nabos…

Interessante!

O meu neto não é sensível. E você?

Figura retirada de (http://www.msd-brazil.com/msd43/m_manual/images/img_glandula_tiroide.jpg)

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Coisa de guerra e sexo

Há dias, na altura dos atentados contra Ramos Horta e Xanana Gusmão, (um parêntesis para repudiar, do fundo de mim, estes e quaisquer atentados), mais precisamente no dia 11 deste mês, no Jornal da 9, Sic Notícias, ouvi algo que me fez lembrar a ligação entre o sucesso reprodutor (dos machos = dos homens) e a guerra.

O comportamento humano de formar grupos para fazer a guerra, têm muito a ver com o seu valor adaptativo relacionado com o aumento do sucesso reprodutor. Grrrr!
Pelo menos para Tooby e Cosmides, na sua teoria evolutiva da guerra.

Neste caminho evolutivo, o ganho, a longo prazo, em recursos reprodutivos deve ultrapassar os custos do envolvimento na guerra. Como as fêmeas representam um importante limite ao sucesso reprodutor dos machos, (ah! ah!) então, na prática, o aumento de cópulas com as fêmeas fica favorecido, na guerra! Grrr!

Para as fêmeas (as mulheres) a coisa já não se passa assim pois o acesso sexual não lhes impõe o mesmo limite! Como é que é?

Explico: As mulheres têm obrigatoriamente de investir nos seus filhos – gastam muita energia a fabricar óvulos (caros!), na gestação (nooooove meses!), no aleitamento, na educação. É por isso que as mulheres constituem um recurso limitado para os homens (Acho que os homens não vão acreditar nisto!).
Por outro lado, os espermatozóides são baratos, digo, baratíssimos (ih! ih!) de fabricar pois não é preciso quase nada de energia. Existem ao desbarato.

Os homens precisam ir para a guerra; as mulheres não, porque haverá sempre nas redondezas um pacote (dois!) de esperma ambulante desejoso de …

Sem saberem (penso eu, pelo menos, sem pensar no assunto naquele momento), Alfredo Reinado (entrevista antiga) referindo-se aos militares australianos que patrulhavam as ruas de Timor disse: … usam bons carros alugados … ficam com as mulheres bonitas… e, Adriano Moreira, referiu que durante a ocupação de Timor pela Indonésia, houve … uma grande resistência das populações - até nos 3 anos seguintes não houve mestiços

Na mouche!


(Tooby, J., & Cosmides, L. (1988). The evolution of war and its cognitive foundations. Institute for Evolutionary Studies, Technical Report #88-1.)

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Como hoje é o dia de S. Valentim fiz um poema...


Gosto da maneira como dizes o meu nome
E de sentir a emoção desse momento
Música ondulante, suave, deliciosa
Combinando com o perfume de uma rosa
Amarela, como eu gosto

Sei-te por dentro quando dizes o meu nome
Estremecendo com ternura e com desejo
De fundir as nossas bocas num beijo
Sei-te

Sou mais que o nome quando dizes o meu nome
Sinto que sou

Sábado, Fevereiro 09, 2008

Cigarros, medo, inteligência

Tenho andado a pensar na nova lei do tabaco e na polémica gerada à sua volta. Desde já digo que concordo com ela. Mas o que me leva a escrever este post é a ligação que sempre se faz na minha cabeça entre o acto de fumar e o medo.

A pergunta martelava: por que será que as pessoas que fumam não sentem medo disso?

Em termos biológicos o que é o medo? Por que será que sentimos medo? Quando sentimos medo? Por que sentimos medo de umas coisas e não de outras?

Sentimos medo quando existe perigo e reagimos de diferentes maneiras: ficamos parados, fugimos, agredimos defendendo-nos ou submetemo-nos. O valor adaptativo destes comportamentos parece óbvio: permite-nos lidar com a fonte do perigo, ultrapassá-la, logo, tem uma função de sobrevivência, é um legado evolutivo que nos leva as a evitar as ameaças.
No fundo o medo é essencial, é uma das emoções mais primitivas, cujo suporte anatomofisiológico é uma pequena estrutura cerebral, a amígdala cerebral.

Actualmente existe um grande corpo de evidências que mostra que desenvolvemos mais facilmente medos contra perigos presentes no ambiente ancestral dos nossos antepassados do que em relação aos perigos do ambiente presente.

Bingo!

Temos mais medo de cobras nas grandes cidades do que medo em relação aos carros. E ... em relação ao tabaco. Uma explicação evolutiva pode ser: o medo dos carros, dos alimentos trangénicos, dos cigarros, etc., não foi, virtualmente, herdado, porque estes representam acontecimentos novos, demasiado recentes para a selecção natural ter desenvolvido medos específicos!

A resposta para as pessoas não terem medo de fumar pode ser simples: não houve tempo para uma resposta evolutiva (adaptativa) da nossa espécie.

Mas nem por isso deixa de ser um GRANDE PERIGO, não apenas para os fumadores mas para TODOS. Como o medo é irracional, então o córtex cerebral terá de entrar em acção. Será que os fumadores são pouco inteligentes?